lista de compras: Março 2005

25.3.05

Ou então...

Se não houver dinheiro para ir de avião é seguir a estrada da esperança. Porque ela existe. Mesmo que seja no fim do mundo.



Estrada de El Calafate para Esperanza. Patagónia, Argentina.
Foto: Edla Pires

24.3.05

Comprar: passagem



Título do Jornal Público:
«Lisboa aproxima-se do custo de vida em Nova Iorque»


Surge-me então a dúvida: o que estamos ainda a fazer aqui?

1. Se as casas são ao mesmo preço e lá têm aquecimento;
2. Se os restaurantes são ao mesmo preço e lá há mais variedade (Sushi-Samba, que saudades!);
3. É verdade que cá há bolas de berlim, mas lá há bagels com cream cheese;
4. Se os filmes chegam mais cedo;
5. Se os livros chegam mais cedo;
6. Se os museus são melhores;
7. Se podemos ver o original do Starry Night do Van Gogh todos os dias em que nos sentirmos em baixo, ou não;

Podemos muito bem aguentar:
1. Taxistas a conduzir loucamente pelas ruas (mas sem escarrar pela janela)
2. Um frio de rachar mas que deixa de importar mal neva
3. Indianos aos gritos connosco nos restaurantes porque nós não percebemos o inglês «perfeito» deles
4. As putas das gorjetas

PS: Só me resta a pergunta final: como é que estamos de emprego em Nova Iorque?

21.3.05


MoMa, NY. 2004

Custa...

Estou com dificuldade em escrever aqui mais qualquer coisa, porque gosto de abrir o blogue e olhar esta fotografia e lembrar-me que o meu mau humor, ou as minhas pequenas angústias, não são nada....
Quando o comboio dos sonhos passar, volto a ligar-me.

17.3.05


Foto de Alfredo Cunha

«Samuel»

As portas de vidro da entrada do prédio reflectiam-lhe a imagem quando digitava um código que fazia soar uma campaínha num qualquer hall de um daqueles apartamentos de Telheiras. Olhava-se de certeza no vidro quando me ouviu perguntar:
- Quem é?
- É o Samuel...
E parou. Disse-me o nome e calou-se por uns instantes. Sabia que nunca o reconheceria, nunca nos havíamos falado antes.
- Samuel?
Só depois falou como os outros, os «profissionais do pedir». Deu corda às palavras e muito depressa disse:
- Estamos sem casa, precisamos de comida, de roupa, de qualquer coisa que nos possa arranjar.
- Está bem, desço já - respondi com voz seca, pouco antes de me dirigir à despensa com um saco de plástico para lá enfiar um litro de leite e um quilo de arroz. Desci no elevador, saco na mão, e vi-o pela primeira vez por entre os vidros das portas do prédio.
Era quase da minha altura, apesar de ter só onze anos. A cara rechonchuda, como a de um bebé de quatro, a pele cor de galão, os olhos escuros, cabelo curto. As mãos vazias nos bolsos de umas calças bejes, uma camisa branca. Olhou-me olhos nos olhos. E eu, com a minha veia inquisidora, perguntei-lhe logo tudo:
- E os teus pais?
- E porque é que os despejaram?
- E porque é que não têm trabalho?
- E a escola? Por que é que não estás na escola se é um dia de semana e ainda é cedo?

- A minha professora não me deixa. Diz que se eu não tiver material não vale a pena ir.

Baixou os olhos, fez um torcidinho com o pé, como se estivesse a chutar uma pedra e voltou a olhar-me.
O Samuel não estava na escola porque não tinha material. Material escolar. Ele veio pedir leite, massa, pão, havia um bebé em casa, mas ele não tinha um caderno nem um lápis. E isso não pediu. Devia achar que era de mais.
- Só tenho uma esferográfica mas a professora diz que não serve
porque não dá para apagar quando erramos...

Ele a contar e eu com o saco na mão. O saco com o leite e o arroz.

- A professora diz que eu não posso ir à escola se não tiver material.

As mãos dele nos bolsos e eu a apertar o raio do saco.

- Mas ela não te arranja um caderno? Um lápis?

Ele abanava a cabeça. E por entre um baixar e subir de olhos, virou-se para mim e disse, do alto dos seus onze anos e cara redonda e pele de galão:

- Também, para quê que me serve ir à escola? É para as obras, não é?

É para as obras não é? Eu sou preto e pobre. É para as obras não é?
Larguei o saco, abri a porta de vidro, subi no elevador, entrei em casa, fui ao escritório e procurei o caderno mais bonito que lá tinha. Era cinzento, de capa dura, A4, cheio de folhas em branco. Peguei também em três canetas e dois lápis.
Bati a porta. Desci no elevador. Abri as portas de vidro e o Samuel lá estava, as mãos nos bolsos nas calças bejes. Olhou para mim, meio espantado.

- Toma. Podes ir trabalhar nas obras, mas promete-me que pelo menos vais tentar trabalhar lá como engenheiro.

O Samuel estendeu as mãos e pegou no caderno. Pô-lo debaixo do braço como qualquer outro rapaz da idade dele ainda com sonhos nas algibeiras.

16.3.05


Papai, não sou mais menina de coro, né?

Pensei que lhe iam bater....

Quando vi a capa do 24 Horas «Ronaldo provoca confusão em casa de Isabel Figueiras» fiquei a pensar:

Será que a moça não tem permissão para namorar?
É que, vamos lá ver, estar espalhada por todo o país em cartazes só em fio dental é uma coisa, agora ter um namorado, ainda por cima jogador da bola, já é de mais. Qualquer dia, apanham a Isabel Figueiras a fumar!

15.3.05

«Semana das aspirinas no Carrefour! Não perca!»

Eles acham que nós somos parvos?

Provas provadas de que é indiferente comprar medicamentos de venda livre na farmácia ou no hiper, ou mesmo nas bombas de gasolina:

1. Ao pedir uma caixa de aspirinas, o farmacêutico nunca me alertou para os efeitos da sua mistura com Coca-Cola.
2. Ao comprar a minha Mercilon (pílula) nunca ninguém me disse para não tomar todas de uma vez, ou sempre à mesma hora ou que se as mamas me crescerem desmesuradamente posso ter de mudar de pílula.

Provas de que vai haver diferenças quando pudermos comprar no hiper ou na bomba:

1. Nenhuma senhora da caixa nos vai olhar de lado por termos preferido o genérico.
2. Depois das sete da tarde não seremos tratados como ladrões a encomendar drogas por um buraco aberto numa porta.
3. Se estivermos a precisar só de um comprimido para a dor de cabeça não temos de estar num sítio cheio de gente a espirrar micróbios sem podermos mudar de caixa.
4. Ninguém nos vai vender medicamentos que REALMENTE PRECISAM DE RECEITA MÉDICA, mesmo que não tenhamos a dita.

14.3.05

Porque há que seguir em frente com um sorriso nos lábios...

Há uns segundos era o espanto, a dúvida, a tristeza. Mas a blogoesfera é rápida e depressa me deparei com a solução para que estes meus amigos voltem à felicidade do romance.

No Jornal 24 Horas de hoje, Capitão Roby e Vítor Espadinha (pelos vistos, na opinião do director do pasquim os gajos que percebem do que é engatar gajas) dão a receita para conquistar mulheres. Aqui ficam uns pequenos excertos.

Conselho Roby:

«Oferecer flores, abrir sempre a porta e não falar para a cara dela para não ter de suportar hálitos ou o que quer que seja»

Algo me deixa inquieta neste conselho. As flores acho lindo, a porta, vá, lá, também. Agora a parte de não falar para a cara dela suscita-me dúvidas:

1. Olha-se para onde, para as mamas?
2. Põe-se a mãozinha marota na cintura e sussurra-se ao ouvido correndo o risco de um perdigoto a deixar sem audição?
3. O possível mau hálito é o dela ou o dele?
4. Bom, e quanto ao «o que quer que seja», vêm-me à mente coisas algo estranhas, mas fico-me pela casca de feijão preto perspegada na cova de um dente.


Conselho Espadinha (só o nome...):

O nosso amigo Espadinha é um pouco contraditório. Primeiro diz:

«Seja o que for que lhe diga, o que interessa é ser frontal»

Para depois acrescentar:

«Dizer a uma mulher que ela tem uma inteligência fora do normal, mesmo que não seja verdade»

Daqui, só posso concluir uma coisa:

A técnica Espadinha é salta-lhe para a cueca nem que para isso tenhas de.... olha, de tudo.... sei, lá, depende da tusa.


Por isso amigos, estão a ver, se estes dois gajos ainda quecam, há esperança para todos no Mundo!!!!!

Comprar: sobrevivência

O H. e a A. acabaram.
A J. e o J. também.
Há uns meses largos a M. e o Z. igualmente.

Querido, sobreviveremos?

Comprar: coragem à E.

A minha amiga E. foi ao cinema. E no mesmo dia viu dois filmes. Seguidinhos. O Million Dollar Baby, primeiro. Depois...... o Mar Adentro.

A notícia é: a E. está viva!

Não sei o que pensar disto.....

Your Penis Name is: Curious George

Get yours here
http://www.blogthings.com/penisname.html

11.3.05

Dia da mulher - repost porque não há tempo para mais...

08. 03. 2005

Depois de umas voltas na blogoesfera e pelas páginas dos jornais, não resisti a escrever sobre o pelos vistos «malfadado» dia da mulher.

O Dia da Mulher é vivido de forma diferente, consoante as mulheres:

1. Primeiro, há as privilegiadas: fazem o que gostam, são bem pagas, têm dinheiro para pagar empregadas, se quiserem não têm problemas em mandar os maridos dar uma volta, vão de férias e, com sorte, nunca ninguém lhes perguntou se pretendiam engravidar quando foram a uma entrevista de emprego. Se calhar por causa das ditas empregadas, de preferência internas, que lhes educam os filhos...

1. 1. Destas, umas agem como ofendidinhas. Que não, que o Dia da Mulher é uma parvoíce, só faz com que se lembre uma vez por ano que somos o sexo fraco, blá, blá, blá.... A igualdade já existe, as oportunidades são iguais, não faz sentido este dia.

1. 2. Outras, mandam logo aquele chavão à tia-que-quer-aparecer-na-Caras: Eu não sou feminista, sou feminina... Afinal, se o querido até ganha umas coroas para irmos para os spas com as amigas.... Este dia é ridículo, dizem elas, porque eu adoro que me abram a porta do carro e me puxem a cadeira no restaurante para sentar o meu cú lipoaspirado.

2. Depois, há a chamada «dona de casa» (expressão que significa não mandar na dita mas trabalhar nela que nem uma moura e ainda ter um emprego nas horas de expediente). Essa ainda não percebeu bem para que serve o Dia da Mulher, porque continua a trabalhar de sol a sol, chega a casa e faz o jantar para os filhos, passa a ferro enquanto vê a telenovela (isto não é sempre porque desde que o marido comprou a Sport TV dá bola a toda a hora) e as melhores férias que teve.... não se lembra. Mas vive melhor que a mãe vivia. Essa se calhar ainda apanhou umas porradas do marido que chegava a casa bêbado e na altura não havia cá congelados, microondas e nada dessas coisas que são óptimas para a emancipação da mulher. Fica-se com muito mais tempo para encerar o chão da casa.

É este tipo de mulher que vai aos programas da Fátima Lopes e do Goucha...

3. Há as que se assumem. Inês Pedrosa (às vezes um pouco de mais). Maria Filomena Mónica (brilhante artigo As mulheres portuguesas são parvas). Leonor Beleza (lúcida entrevista na Pública).

E é destas que eu gosto.

Porque estas também são privilegiadas mas vêem para lá do umbigo.

E porque também já foram descriminadas.

4. Eu.

Eu acho que o Dia da Mulher deve existir, não para falar do feminismo vs feminilidade, nem para fazer generalizações bacocas como os homens são todos assim e as mulheres todas assado.

E deve existir enquanto se verificarem uma série destas coisas:

No mundo Ocidental:

1. Numa entrevista de trabalho, surja a pergunta: pensa engravidar?
2. Se engravidar e estiver com contrato a termo ser ameaçada de despedimento (este caso não se aplica se o seu problema for partir as duas pernas e ficar cinco meses de baixa em casa. Porque ninguém parte as pernas porque quer)
3. No ano em que engravidou não ser aumentada e o gajo que partiu as duas pernas ter aumento (que pode ainda ser alargado se as pernas tiverem sido partidas num jogo de futebol de 5 com os colegas de trabalho)
4. Ser mais fácil e mais aceitável pedir para sair mais cedo para pôr o carro na revisão do que para ir buscar o filho à creche
5. Entre um homem e uma mulher que se candidatam ao mesmo trabalho, perante iguais condições (ou mesmo em alguns casos a mulher mais qualificada), o homem for sempre escolhido por não se correr o risco de acontecer tudo o que está descrito nos pontos anteriores

No mundo não-Ocidental (chamemos-lhe assim):

1. Houver excisão
2. Houver apedrejamentos por adultério
3. Queimaduras com ácido ou mesmo morte por ter sido violada
4. Não poder estudar
5. Ter de andar tapada
6. Não poder votar
7. Não poder nascer por ser mulher ou ser morta à nascença por isso


Sempre me irrita aquele comentário: «Não gostas dele/a porquê? Fez-te algum mal?» Então só nos indignamos quando as coisas nos batem à porta?
Eu só digo a essas tias de merda que se não fossem as desbocadas que andaram a queimar soutiens e as doidas das Simones de Beauvoir e essas putas dessas Virginias Wolfs, elas bem podiam penar pela silicone toda do mundo que o melhor que lhes podia acontecer em termos de cirurgia plástica era coserem-lhes a boca com uma linha e cortarem-lhes o clitóris com uma lâmina de barbear. E enquanto isto tudo acontecer, seja a mim, a uma amiga minha ou à criança guineense, ou à bebé morta na China, ou à adolescente do Afeganistão, ou à mulher da Nigéria, vou-me insurgir contra todas essas vacas que acham que igualdade é ter um cartão de crédito só delas.
Foda-se, pá!

9.3.05


Jaime

Poema para o meu filho que amanhã faz um ano...

Como esta casa limpa
Como chão varrido
Como porta aberta

Como puro início
Como tempo novo
Sem mancha nem vício

Como a voz do mar
Interior de um povo

Como página em branco
Onde o poema emerge

Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação

Sophia de Mello Breyner

Poema para quem hoje faz 30 anos

E se todos, tu

ninguém caía sozinho
ninguém secava de amor
ninguém paria com dor

E se todos, tu

ninguém quebrava
ninguém chorava
ninguém sofria

E se ninguém como tu

Eu morreria...

8.3.05



Hoy, mi corazon es Blau-grana...

7.3.05

Comprar: Especial Freitas

Acho que as televisões deveriam fazer um Especial Freitas a acompanhar, em directo e em exclusivo, a trasladação da fotografia do fundador do CDS do Largo do Caldas para o Largo do Rato.
Acho, «prontos».

6.3.05


Depois de ver o rapaz de gorro à pescador, com um ar moribundo, tive de pôr isto aqui. Não é futilidade, é alegria de viver!

5.3.05


This is the way...

4.3.05

Se ele é chefe, ele deve saber....

Frase do dia:

«Nacional, Estoril, Penafiel.... O Benfica vai ser campeão»
L.S.

SOCORRO!!!!

O SANTANA LOPES VAI VOLTAR PARA A CÂMARA MUNICIPAL!
JÁ ESTOU A VER O PRÓXIMO CARTAZ:

Já reparou que não
conseguiu correr comigo?

3.3.05

Só pode ser bom, não é?

Foi encontrado o maior número primo de sempre, composto por 7.816.230 algarismos. E é o 42º número primo de Mersenne (especialmente raro) descoberto.

Só pode ser uma boa notícia, não é????

Ah, ah,ah, o problema foi COMPRAR!!!!

Agora já toda a gente conhece o padre Serras Pereira, aquele do anúncio dos excomungados. O padre Serras Pereira diz que não tem «igreja fixa» e por isso teve de recorrer ao anúncio para fazer passar a mensagem que, caso tivesse «igreja fixa», debitaria do púlpito para os fiéis que assistissem às suas missas.
Ora o espaço publicitário tem custos e o padre teve de desembolsar «mais de 1300 euros» (é estranho que o jornal Público, onde o anúncio saíu, não consiga dizer exactamente quanto é que o homem pagou....) para fazer passar a mensagem. Ou seja, uma homilia que lhe custou caro, mas que chegou a milhões de pessoas.
E é este gasto de dinheiro que pelos vistos incomodou vários bispos. Citando o jornal Público - «(...) foi a publicação do anúncio pago e o tom em que estava redigido, que levou a que os bispos fizessem sentir o seu mal estar»

O TOM.

Ora muito bem. A conclusão que eu tiro é esta: tivesse o padre «igreja fixa» e fizesse um discurso menos explícito (ao menos o homem disse o que tinha a dizer e chamou as coisas pelos nomes) e estava tudo bem. E pelos vistos está, porque como diz o director da Faculdade de Teologia da U. Católica o padre Serras Pereira está de facto a aplicar o cânone 915 do direito canónico. Mas como o fez para muita gente ao mesmo tempo e além disso - blasfémia! - gastou dinheiro, vai ser «admoestado». Espero que não lhe atirem com nenhum DIU à cabeça...

Comprar: resposta

Afinal, o Luís Delgado que estava supostamente na corrida para comprar a Lusomundo Media inseria-se em que grupo? Uma dica: Olivedesportos?

2.3.05

Não resisti ao plágio....

Desculpem lá, mas eu quero esta frase no meu blogue. Tirei-a do blogue da Pais e Filhos ( paisifilhos.blogspot.com) e vou pô-la aqui, em letras bem grandes, para nunca me esquecer disto para o resto da minha vida. Porque o meu filho, que faz um ano para a semana, bem o merece. Nós todos, aliás.

«A cabeça não pensa aquilo que o coração não pede. Anote isso: os conhecimentos que não são nascidos do desejo são como uma maravilhosa cozinha na casa de um homem que sofre de anorexia.»
Rubem Alves

Pimpinha e Eduardinho

Ora neste mundo em que me movimento para ganhar dinheiro deparo-me cada vez mais com os irritantes diminuitivos (palavra difícil para definir uma abreviatura, logo, uma palavra mais fácil que a original...). Bom, adiante. Os ditos, além de serem muitas vezes confundíveis com nomes de cães de bolso, podem tornar-se incómodos.
Suponhamos que num qualquer serviço tenho de falar com Eduardinho que, para quem não saiba, é treinador-adjunto do Sporting. O que é que eu faço?

- Desculpe, senhor Eduardinho, posso fazer-lhe uma pergunta?
ou
- Senhor Eduardinho, acha que o Liedson deve ser castigado? Não? Mas como é que o senhor Eduardinho lida com esta situação?

Ridículo. O homem chama-se Eduardo e deve ter, de certeza, um sobrenome. Santos, Silva, Magalhães, qualquer coisa...

Toda esta conversa para explicar que há uma solução para os inhos e as inhas deste nosso Portugalzinho. E uma solução que não ofende ninguém. Eduardinho, filho, se me estás a ler, não pares.

Tomemos como exemplo a mais recente ex-inha do país. The girl former known as Pimpinha Jardim é agora Catarina Jardim. E porquê? Porque a moça, que para quem não sabe é filha de Cinha Jardim (sim, estas coisas passam de uns para os outros) e acho que trabalha na televisão, tirou umas fotos para a Maxmen. É, aliás, capa da Maxmen.
E basta olhar para perceber que umas mamas daquelas não podem chamar-se pimpinhas. Aquilo são umas Catarinas das mais Eufémias que se possa imaginar. É isso aí miúda, afirma-te! Morra Pimpinha, viva Catarina! Mamas à vista, diminuitivos na gaveta. Emancipação é isto mesmo!

Tudo isto, meu caro Eduardinho, para lhe fazer ver que Eduardo Santos, Silva, Magalhães é que é nome de quem tem os Eduardinhos no sítio.... Percebeu?

Comprar: mulheres e homens

Rendi-me a ela quando li a entrevista no DNA. Não é fácil, porque ela é controversa, tem ideias muito fixas e às vezes fixa-se do lado que eu acho errado. E outras não. Como desta vez. Deixo o artigo de hoje do jornal Público, que subscrevo. Eu sou uma mulher de 29 anos, com um filho e um trabalho. Com uma grande diferença pelos vistos, em relação a muitas outras mulheres na mesma situação que eu: o meu marido não «ajuda», partilha. É como eu, muitas vezes até mais que eu. Costumo dizer e digo-o com cada vez mais razão: se não tivesse casado com ele nunca me teria casado com ninguém. Porque o que vejo é o que Maria Filomena Mónica diz: as minhas amigas casadas e mães com emprego têm maridos que só «ajudam» e porque lhes é pedido. E elas lá vão andando. Põem os miúdos na escola, vão trabalhar, voltam, fazem o jantar, pôem os putos na cama e se tiverem algum estofo conseguem ler umas linhas de um livro que está há meses na mesa de cabeceira, talvez vejam um episódio do Sexo e a Cidade, pensam que talvez amanhã consigam ir cortar o cabelo, e o ginásio que é pago e nunca se põe lá os pés, e os filmes que não dá para ir ver. E o gajo que chega a casa e ainda refila porque não há sexo há semanas, ou meses, e é uma chatice, tenho 30 anos e não posso viver assim, o que será daqui a vinte? Sexo uma vez por ano? E senta-se e puxa da revista com a Catarina Jardim e as suas pimpinhas empinadas, e as brasileiras com belos rabos e as estrelas de Hollywood acabadas de parir com barrigas flat e elas ali. Engolem um anti-depressivo, tentam forçar uns pensamentos eróticos e lá vão para uns minutos de «sexo industrial» - aquele que é mecanizado, o que não é mau, porque cada um sabe o que tem de fazer para chegar onde se quer de forma eficaz e rápida.
As mulheres portuguesas são parvas. E os homens também, mas só do nosso ponto de vista, porque eles é que andam a gozar o momento.

As mulheres portuguesas são parvas
Por Maria Filomena Mónica

Quando casei, o que de mim se esperava, além da procriação continuada, era que passasse o dia a arrumar a casa, a cozinhar pratos requintados e a vigiar a despensa. Hoje, a estas tarefas vieram juntar-se outras. As mulheres modernas são também supostas ser boas na cama, profissionais competentes e estrelas nos salões
Nos últimos tempos, fui entrevistada por vários jornais, os quais, suponho que devido à crise económica, me enviaram mulheres muito novas. Eram geralmente bonitas, espertas, altas, modernas e rápidas. Eis, pensei, a Nova Mulher. Inesperadamente, o final das conversas tendeu a escorregar para a dificuldade que elas encontravam na compatibilização entre o trabalho e a maternidade. Num caso, aconteceu mesmo ter eu descoberto estar a desempenhar o papel de psicanalista, dando conselhos sobre a forma como a jornalista em causa, que acabara de ter um filho, podia e devia reivindicar para si, sem se sentir culpabilizada, um maior espaço de autonomia.

Suponho que o facto de ser mulher, mãe e avó convida a estas confissões imprevistas. Não me importei: as revelações das jovens serviram para me mostrar que as novas gerações femininas, pelo menos as da classe média, não têm a vida mais facilitada do que eu a tive há quarenta anos. Por um lado, as "criadas de servir", como antigamente lhes chamávamos, são hoje mais caras, por outro, a ideologia dominante sobre a função da mulher alterou-se menos do que eu pensava.
É isto que um trabalho, publicado por Karin Wall, do Instituto de Ciências Sociais, e por Lígia Amâncio, do ISCTE, veio demonstrar. A quase totalidade dos portugueses (93 por cento) considera que, num casal, tanto o homem quanto a mulher devem trabalhar fora de casa, mas um número impressionante (78 por cento) diz que uma criança pequena sofre quando a mãe trabalha. Cerca de metade da população afirma que as mães se deveriam abster de trabalhar quando têm filhos com menos de seis anos. Ora, devido aos salários reduzidos da maioria dos trabalhadores masculinos, Portugal possui a mais alta taxa de emprego feminino da Europa, uma situação que só pode conduzir a que as portuguesas vivam em estado permanente de culpabilidade.
Mas há mais. Os portugueses excedem-se verbalmente no seu amor pelas crianças: para 62 por cento, os indivíduos que não têm filhos levam uma "vida vazia". Ora, são estes senhores, que tanto dizem amar os filhos, que se não dão ao trabalho de lhes mudar as fraldas, de os levar ao médico ou de os alimentar. As mulheres portuguesas gastam três vezes mais horas do que os homens na lida doméstica: elas despendem, por semana, vinte e seis horas, eles apenas sete, o que dá uma diferença de dezanove horas semanais, uma média superior à europeia. As portuguesas continuam a ser exploradas, como se nada se tivesse passado desde o momento, na década de 1960, em que a minha geração ergueu a bandeira da emancipação feminina.
Algumas das jovens, que responderam ao inquérito, declararam conformar-se com a distribuição do trabalho vigente, chegando a dizer que "nós nunca nos zangamos por causa das tarefas domésticas", continuando a lavar a roupa, a passar a ferro e a mudar fraldas, como se os filhos não fossem responsabilidade de ambos. Sei, por experiência própria, que é mais fácil fazer greve às tarefas domésticas do que ao tratamento dos filhos. Apesar das minhas resistências iniciais, acabei por admitir que existe um laço afectivo diferente entre a mulher, que teve de carregar um feto na barriga durante nove meses, e o homem que se limitou a depositar nos ovários um montinho de espermatozóides. Mas isto não explica a exploração a que as minhas compatriotas são sujeitas, não só pelos maridos, como por uma sociedade que continua a atribuir-lhe todos os males contemporâneos, do consumo juvenil da droga à anomia cerebral dos alunos.
Nunca esperei que a situação fosse tão má quanto a que este inquérito revela. Na minha ingenuidade, pensei que, na História, havia domínios - sendo um deles a emancipação feminina - em que tinham verificado progressos. Depois de ler estes dados, tenho dúvidas. Algumas raparigas ainda parecem pensar que a sua única função no Universo consiste em desempenhar os papéis de esposas devotadas, seres paranoicamente ocupados com a limpeza do pó e mães tão excelsas quanto a Virgem Maria.
De certa forma, o destino das raparigas na casa dos trinta ou quarenta anos corre o risco de ser pior do que o meu. Quando casei, o que de mim se esperava, além da procriação continuada, era que passasse o dia a arrumar a casa, a cozinhar pratos requintados e a vigiar a despensa. Hoje, a estas tarefas vieram juntar-se outras. As mulheres modernas são também supostas ser boas na cama, profissionais competentes e estrelas nos salões. Mas isto é uma utopia. Nem a mais super das supermulheres pode levar as crianças à escola, atender os clientes no escritório, ir à hora do almoço ao cabeleireiro, voltar ao escritório onde a espera sempre um problema urgente, fazer compras num destes modernos supermercados decorados a néon, ler umas páginas de Kant antes de mudar as fraldas do pimpolho, dar um retoque na maquilhagem, telefonar a três "babysitters" antes de arranjar uma, ir ao restaurante jantar com os amigos do marido, discutir a última crise governamental e satisfazer as fantasias sexuais democraticamente difundidas pelos canais de televisão. Estou a falar, note-se, de mulheres socialmente privilegiadas. A vida das pobres é um inferno sem as consolações de que as suas irmãs de sexo, apesar de tudo, usufruem.
É por isso que a luta tem de continuar. Não sei se sou "femininista", nem me interessa debater a questão terminológica. Sei que sou contra todas as injustiças e, entre elas, contra a ideologia que nos quer manter encerradas numa Casa de Bonecas. Ao longo dos anos, tenho ouvido de tudo, incluindo mulheres que dizem estar contra a emancipação feminina. Pensei então que não valia a pena perder tempo com tontas. Mais madura, considero hoje que o melhor é retirar-lhes o direito ao voto, o direito ao divórcio e a protecção legal contra a violência doméstica. Se gostam de ser escravas, que o sejam. Acabou-se o tempo das contemporizações. Quem luta, têm direitos; quem se resigna, fica de fora.

Comprar: vida

Ontem o Supremo Tribunal de Justiça dos Estados Unidos da América decidiu que era inconstitucional condenar à morte menores de 18 anos. Ontem, 70 crianças que estavam no corredor da morte souberam que afinal iam viver e morrer de outra causa que não «homicídio» (sim, é assim que aparece nos relatórios de óbito de quem é executado a mando da justiça) pelo Estado.
Estes escaparam, porque cinco dos nove juízes decidiram desta maneira. Mas gostava de saber quantos morreram anteontem. Porque alguns devem ter morrido. Porque anteontem, a vida deles nada valia. Porque anteontem, matá-los era constitucional.