lista de compras: Janeiro 2010

31.1.10

Sim, é isto

"Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.

O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.

Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia serdesmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há,estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida,o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.

O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio,não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.

O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."

Miguel Esteves Cardoso

28.1.10

O ar que se respirava não era o mais saudável, mas pelo menos estava acompanhado. Dia e noite nunca se sentia sozinho naquela casa, uns míseros metros quadrados muito bem ventilados, com sol em dias de sol, e chuva em dias de chuva. No Verão fazia muito calor e no Inverno sempre frio. Quando amanhecia sentia a luz a entrar-lhe pelos olhos e mal caía a noite sentia-se iluminado aqui e além pelas luzes dos carros que passavam. Primeiro muitos a caminho de casa, depois menos, às tantas quase nenhum. Até que o sol voltava a nascer e a correria se iniciava.
Viveu naquela casa durante vinte anos. Fez uma cama pequena. Estava quase sempre em pé, naquela divisão que era quarto e sala. Atravessava para ir à casa de banho, apenas quando o sinal ficava verde para os peões. O sinal que ele podia partilhar com quem passava, eram muitos os convidados lá de casa, uma casa que ele sentia apenas dele.
Vivia num passeio junto a um semáforo. Tinhas longas barbas, comia quando havia o que comer, não falava com ninguém. Houve dias em que se esqueceu de como se chamava ou de quantos anos tinha. Contava os dias pelas luzes dos faróis que ora o encandeavam acesos, ora passavam por ele apagados. Contava as estações do ano pelo calor que fazia ou pelo frio que lhe enregelava os ossos. Contava a idade pelo tamanho dos pelos que lhe pendiam da cara e que foram mudando de cor. Por vezes passava mal. Detestava o amarelo intermitente.
Ela tinha um quarto, mas as noites passava-as na esquina da rua, onde amontoava caixas da telepizza. Todas de tamanho familiar. Algumas com restos, aquelas bordinhas mais queimadas que ninguém gosta de comer. Não lhes tocava, mesmo quando tinha alguma fome e nenhum cliente aparecia para lhe usar o corpo em troca de algum dinheiro. Por vezes quando se afastava, durante o dia, para trocar de roupa ou dormir um pouco, alguém fazia desaparecer as caixas. Isto nos dias em que ia directamente do carro dos homens que se diziam satisfeitos para o terceiro andar da Rua dos Anjos. Nos outros passava para ir buscar as caixas. Levava-as para o quarto, colocava-as numa pilha ao lado da cama. Tinha vinte e três. Chouriço e azeitonas, fiambre e ananás, frango e natas, tomate e cogumelos.
Deitava-se com o cheiro do cartão sujo de gordura e sonhava com uma mesa posta ou um sofá com gente, a partir fatias e a servir copos de coca cola. Às vezes tinha pesadelos. Detestava quando lhe trocavam os pedidos.

25.1.10

Está sempre frio e uma nuvem paira no ar, ainda que esteja sol em Lisboa, ali gela e há vento. Os moinhos não têm velas, e por isso não giram. Ouve-se o barulho dos carros que passam velozes na autoestrada sempre à vista. À mão. Um caminho, um acelerador, um bilhete de volta para o mundo que corre. Muito depressa. Como corre o cão, preso por roubar e assassinar galinhas, agarrado a uma corrente com tamanho suficiente para que exercite as patas, mas que não o deixa fugir.
Cheguei num dia sem luz. As botas a bater na calçada anunciavam-me sempre que passava. Ainda que não percebesse, todos me olhavam e faziam perguntas para as quais não encontravam respostas. Soube depois que repararam na cor do meu casaco e na maneira de eu andar. Depois, quando nos sentámos à mesa e fumámos cigarros. Quando jogámos matraquilhos e dissemos asneiras. Mas naquele primeiro dia era uma intrusa.
Sentei-me longe do semi-círculo que fizeram com as cadeiras. E quando ele começou a falar já o microfone estava desligado. Chama-se Ernesto. Tem 43 anos. Usa óculos e um dos olhos é baço, não sei se vê bem como o outro castanho escuro. Não tem a certeza que ainda vá a tempo. Mas soube esperar depois de nove anos na prisão. Soube que tinha de esperar mais, que tinha de ter mais tempo. Soube-o naquele dia em que saiu da prisão e os carros o assustavam. De sobressalto em sobressalto pela rua fora quis parar mais um pouco. Quis conhecer-se fora das grades. Quis saber falar com os outros sem pensar quem tinha a faca atrás das costas. Quis ter regras e cumprir horários. Quis aprender ofícios novos. Quis esperar antes de se fazer à estrada.
Contou-me isto tudo, o Ernesto, o ex-traficante, o ex-toxicodependente, o ex-presidiário. O Ernesto. Doce, paciente, sorriso sincero, um pouco tímido. Disse-me no fim da entrevista que ia reparando na minha cara enquanto ele falava. Que eu lhe transmitia segurança, que tinha um sorriso franco e que via em mim uma pessoa estável.
O Ernesto puxou de um cigarro enquanto eu apanhava um lenço de papel no bolso do casaco para limpar as lágrimas. Ele quer ter uma namorada. Eu queria muito dar-lhe um abraço.